sexta-feira, 4 de junho de 2010

João da Cruz e Sousa


João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.

Biografia

Filho dos negros alforriados Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição[1], João da Cruz desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa - de quem adotou o nome de família, Sousa. A esposa de Guilherme Xavier de Sousa, Dona Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, não tinha filhos, e passou a proteger e cuidar da educação de João. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.

Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular. Em Fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem tem quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose, levando-a à loucura.

Morte

Faleceu a 19 de Março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, num povoado chamado Estação do Sítio, para onde fôra transportado às pressas vencido pela tuberculose. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos, dentre eles José do Patrocínio, onde permaneceu até 2007, quando seus restos mortais foram acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa, no centro de Florianópolis.

Foi integrante da Academia Catarinense de Letras, de cuja cadeira 15 é patrono.


Análise da obra

Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.

No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Baudelaire ao espiritualismo (e dentro desse, idéias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como a fases na vida do autor.
Embora quase metade da população brasileira seja negra, poucos foram nossos escritores negros e mulatos. E, entre eles, poucos foram os que escreveram em favor da causa negra. Cruz e Souza, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de "Cisne Negro", o poeta João da Cruz e Souza não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista. A acusação, porém, não precede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Souza militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha antiescravista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.

Quando Cruz e Souza diz "brancura", é preciso recorrer aos mais altos significados desta palavra, muito além da cor em si.

Livros

* Broquéis (1893, poesia)
* Faróis (1900, poesia)
* Últimos Sonetos (1893, poesia)
* Tropos e Fanfarras (1885, prosa - em conjunto com Virgílio Várzea)
* Missal (1893, poema em prosa)
* Evocações (1898, poemas em prosa)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Laços Eternos!

Hoje, ao atender o telefone que insistentemente exigia atenção,
o meu mundo desabou.
Entre soluços e lamentos, a voz do outro lado da linha
me informava que o meu melhor amigo,
meu companheiro de jornada, meu ombro camarada,
havia sofrido um grave acidente,
vindo a falecer quase que instantaneamente.
Lembro de ter desligado o telefone,
e caminhado a passos lentos para meu quarto, meu refugio particular.
As imagens de minha juventude
vieram quase que instantaneamente a mente.
A faculdade, as bebedeiras, as conversas em volta da lareira
até altas horas da noite, os amores não correspondidos,
as confidencias ao pé do ouvido, as colas,
a cumplicidade, os sorrisos...
AHHHHH... os sorrisos....
Como eram fáceis de surgir naquela época.
Lembrei da formatura, de um novo horizonte surgindo...
das lágrimas e despedidas,
e principalmente, das promessas de novos encontros.
Lembro perfeitamente de cada feição do melhor amigo
que já tive em toda a vida: em seus olhos a promessa
de que eu nunca seria esquecida.
E realmente, nunca fui.
Perdi a conta das vezes em que
ele carinhosamente me ligava
quando eu estava no fundo do poço.
Ou das mensagens - que nunca respondi -
que ele constantemente me enviava,
enchendo minha caixa postal eletrônica de esperanças
e promessas de um futuro melhor.
Lembro que foi o seu rosto preocupado
que vi quando acordei de
minha cirurgia para retirada do apêndice.
Lembro que foi em seu ombro
que chorei a perda de meu amado pai.
Foi em seu ouvido que derramei
as lamentações do noivado desfeito.
Apesar do esforço para vasculhar minha mente,
não consegui me lembrar de uma só vez
em que tenha pego o telefone para ligar
e dizer a ele o quanto era importante para mim
contar com a sua amizade.
Afinal, eu era uma mulher muito ocupada.
Eu não tinha tempo.
Não lembro de uma só vez em que me preocupei
de procurar um texto edificante e enviar para ele,
ou qualquer outro amigo,
com o intuito de tornar o seu dia melhor.
Eu não tinha tempo.
Não lembro de ter feito qualquer tipo de surpresa,
como aparecer de repente com uma garrafa de vinho
e um coração aberto disposto a ouvir.
Eu não tinha tempo.
Não lembro de qualquer dia em que
eu estivesse disposta a ouvir os seus problemas.
Eu não tinha tempo.
Acho que eu nunca sequer imaginei que ele tinha problemas.
Não me dignei a reparar que constantemente
meu amigo passava da conta na bebida.
Achava divertido o seu jeito bêbado de ser.
Afinal, bêbado ou não ele era
uma ótima companhia para mim.
Só agora vejo com clareza o meu egoísmo.
Talvez - e este talvez vai me acompanhar eternamente
- se tivesse saído de meu pedestal egocêntrico
e prestado um pouco de atenção e despendido
um pouquinho do meu sagrado tempo,
meu grande amigo não teria bebido até não agüentar mais
e não teria jogado sua vida fora ao perder o controle
de um carro que com certeza,
não tinha a mínima condição de dirigir.
Talvez, ele, que sempre inundou o meu mundo
com sua iluminada presença,
estivesse se sentindo sozinho.
Até mesmo as mensagens engraçadas
que ele constantemente deixava
em minha secretaria eletrônica,
poderiam ser seu jeito de pedir ajuda.
Aquelas mesmas mensagens que simplesmente
apaguei da secretaria eletrônica,
jamais se apagarão da minha consciência.
Estas indagações que inundam agora
o meu ser nunca mais terão resposta.
A minha falta de tempo me impediu de respondê-las.
Agora, lentamente escolho uma roupa preta
- digna do meu estado de espírito e pego o telefone.
Aviso o meu chefe de que não irei trabalhar hoje
e quem sabe nem amanha, nem depois...,
pois irei tirar o dia para homenagear
com meu pranto a uma das pessoas que mais amei nesta vida.
Ao desligar o telefone, com surpresa eu vejo,
entre lágrimas e remorsos, de que para isto,
para acompanhar durante um dia inteiro
o seu corpo sem vida, eu TIVE TEMPO!
Descobri que se você não toma as rédeas da tua vida
o tempo te engole e te escraviza.
Trabalho com o mesmo afinco de sempre,
mas somente sou "a profissional" durante o expediente normal.
Fora dele, sou um ser humano.
Nunca mais uma mensagem da minha secretaria eletrônica
ficou sem pelo menos um "oi" de retorno.
Procuro constantemente encher a caixa eletrônica
dos meus amigos com mensagens de amizade e dias melhores.
Escrevo cartões de aniversario e de natal,
sempre lembrando as pessoas de como elas
são importantes para mim.
Abraço constantemente meus irmãos e minha família,
pois os laços que nos unem são eternos.
Esses momentos costumam desaparecer com o tempo,
e todo o cuidado e pouco."

Autoria Desconhecida